terça-feira, 9 de junho de 2009

O fedor da educação parte II

Fiquei sem ação, não esperava aquela atitude. Senti muito medo, mas como não sou impulsiva, resolvi esperar o sinal tocar, pois só faltavam três minutos.
O sinal tocou.
Desci diretamente para a sala do vice-diretor, que se encontrava bem agitado com o aluno ao seu lado.
Acho que eu estava mais branca do que já sou, estava tão nervosa que minhas palavras não saíam, não conseguia explicar o que havia acontecido. Eu só ouvia a voz do aluno que parecia vir de bem longe, sem muita clareza. Percebia que ele estava bem alterado e o vice, bem nervoso.
Durante aqueles segundos lembrei-me da Pedagogia do Amor e em vez de me alterar como o aluno ou tentar encerrar tudo aquilo com um grito, pedi licença ao vice-diretor e convidei o aluno para ter uma conversa em particular na sala dos professores.
O vice-diretor me autorizou, mas deixou bem claro que ficaria de tocaia e era só chamá-lo se precisasse.
Durante a ida até a sala dos professores, eu tremia, mas ao mesmo tempo pensava em Deus e na Pedagogia do Amor. Pensava: “Eu preciso plantar uma semente nesse coração atordoado.”
Entramos na sala, pedi que sentasse e expusesse tudo que estava sentindo. Ele não quis se sentar e começou a falar dando tapas na mesa:
- Não foi eu que deixei aquela merda para você. Eu vou te matar, quem você pensa que é? Eu tenho vários amigos manos que é só eu falar com eles e eles te apagam. Cuidado! Você quer morrer?
Tremendo, eu não falava nada, deixei-o despejar tudo. Não tinha reação.
- Você só vai ser mais uma na lista de professores mortos.– Ele gritava.
– Tá com medo? E agora, não vai continuar com os agradecimentos? Vai, fala alguma coisa?
- Posso? – Perguntei em voz baixa.
Nesta hora ele parou de gritar e uma imensa força me deu voz.
- Assim como eu não te interrompi, não quero que me interrompa. Depois que terminar, nós tiraremos as conclusões juntos.Ok?
- Tudo bem. – Me respondeu ele um pouco mais calmo.
Então ele se sentou e começou a me ouvir.
- Em primeiro lugar eu não te acusei. Os seus colegas deram o seu nome como autor da idéia do presente e eu simplesmente te agradeci. Se não foi você, por que saiu tão nervoso me ameaçando? Bastava dizer que não havia sido você. E tem mais, o que você disse em alto e bom som para todos ouvirem pode se virar contra você hoje mesmo, porque se acontecer qualquer coisa comigo a primeira suspeita será você porque muitos testemunharam o ocorrido.
Depois do sermão passei a mudar a retórica colocando-o para cima e enfatizando algumas coisas que já havia percebido no decorrer das aulas.
- Confesso que eu fiquei apavorada com a sua reação. Não imaginava que você, um aluno tão esforçado, educado fosse tão nervoso assim. Você é muito novo para agir por impulso. Se você pega uma pessoa mais alterada como você, isso pode terminar em tragédia.
Continuei.
- Na sala de aula já ouvi você falando que trabalha para ajudar sua mãe, e se num impulso desses acontece algo com você, como fica sua mãe?
Nesse momento seus olhos se encheram de lágrimas e eu dei espaço para ele falar. Fui conduzindo a conversa para o lado familiar e ele foi se abrindo, conversando sobre tudo. Falou que morava em uma favela onde a lei era o crime, que seu irmão estava preso por assalto à mão armada e que não tinha nada a perder.
Aquele coração endurecido tinha motivos para isto, era um rapaz amargurado. Eu precisava resolver a situação. Expliquei-lhe que ele não era o único que passava por aquele tipo de situação, havia muitos como ele e o que ele deveria tentar era mudar a situação vivida e não tentar piorá-la.
Ele já se mostrava mais calmo e me perguntou qual atitude eu tomaria.
Respondi que poderia fazer um B.O. ou selar um laço de amizade entre nós.
Naquele momento estava me arriscando, porém ele parecia bem arrependido.
Ele deu um sorriso tímido, apertou a minha mão e selou amizade.
Então lhe disse:
- Eu quero poder ajudá-lo sempre que precisar. Espero que essa nossa conversa tenha sido um aprendizado para nós dois.
Nós saímos da sala dos professores, demos de cara com o vice que nos perguntou se estava tudo resolvido.
Ambos respondemos com a cabeça e nos despedimos.
Nunca fiquei sabendo quem foi autor da fétida brincadeira.
Passei alguns meses tentando me recompor daquele trauma e tentando ter uma boa relação com os alunos daquela classe.
Graças a Deus e a Pedagogia do Amor nunca mais senti o cheiro fedido daquela falta de educação.

Aprendendo: “... Como educar nossas crianças e jovens num tempo que a aparência vale mais que a essência e a competição e o individualismo teimam em ditar as regras dos relacionamentos, acabando por minar qualquer possibilidade de companheirismo, amizade e amor?” Gabriel Chalita



3 comentários:

  1. Esse desfecho só confirma o que eu sempre acreditei que se respondemos agressão com agressão, seja verbal ou física, podemos até extravasar a emoção, porém não resolveremos e sim aumentaremos o problema.

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  2. Agora com letras maiores, o blog ficou mais interessante e chamativo!!! Ótimo. bjss Nery

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  3. Sempre acreditei na Pedagogia do Amor, e vendo esse relato continuarei acreditando.
    Sabemos que a nossa sociedade está cada vez mais, produzindo esse tipo de "ator", mas cabe a nós educadores acreditarmos que isso pode mudar.
    Beijos ... Seu blog está ótimo!!!!! Paula Cruz

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