Aconteceu em 31 de outubro de 2007.
A escola onde eu trabalho tem cinco salas de aula no andar de cima e sete no andar de baixo, sendo que uma delas, na verdade, não é sala de aula; ora é laboratório, ora é sala de vídeo, ora não é nada.
Dizem que antes de a escola ser construída, o que havia ali era um terreno baldio onde enterravam corpos de indigentes e a “coveira” - uma senhora bem velha e maltrapilha - cuidava muito bem dos mortinhos ali enterrados.
Num certo dia apareceram tratores e máquinas para limpar o terreno, pois ali seria construída uma escola.
A velha não se conformava.
Durante toda a limpeza do terreno, ela se revoltava, não saía da frente das máquinas, brigava com as pessoas que tentavam exercer seu trabalho, até que percebeu que não podia lutar contra e jogou uma praga:
- Eu vou me matar aqui nesta parte do terreno para me encontrar com os colegas dos quais eu cuidei durante muito tempo e a parte da escola que será construída aqui eu amaldiçoarei para sempre.
E ela se matou ali mesmo.
Passado algum tempo a escola foi sendo construída, mas todo o operário que trabalhava naquela parte amaldiçoada, sentia calafrios, se machucava e às vezes até ouvia vozes. Foi uma dificuldade concluir a construção da escola, sobretudo no local onde a velhinha pôs fim a vida.
Depois de erguida e inaugurada a escola, alguns operários que sentiram a maldição da velha conversaram com o primeiro diretor, explicando o ocorrido e pediram que, para a proteção de todos os alunos, era necessário que aquela sala não fosse utilizada como sala de aula, mas sim como algo de uso esporádico. O diretor acatou o pedido e foi passando a história adiante até a diretora que exerce o cargo nos dias de hoje.
Eu nunca soube dessa história, mas na véspera desse dia, quando eu organizava a tal sala para um evento de Haloween no colégio, aconteceu uma coisa inacreditável.
Eu estava com alguns alunos pendurando os morcegos no teto quando veio um vento bem forte que atrapalhou toda a produção e junto com ele a imagem de um rosto de uma senhora.
Nesse momento eu desmaiei e acordei com vários alunos a minha volta.
...
...
...
Foi horrível, mas... você não acreditou, né?
É, realmente não é verdade.
Criei essa assustadora história no Dia do Halloween, pois a idéia da professora com quem eu trabalhava era criar uma sala ambiente, explicar a origem do Halloween e encerrar a aula com uma história de terror, que ficou por minha conta.
Eu não tinha idéia do que falar, pois aterrorizar alunos entre 12 e 14 anos com qualquer historinha não é fácil.
Então pensei em algo que incluísse a vivência daqueles meninos e meninas.
Foi muito engraçado e realmente assustador.
A cada “capítulo” da história, eu via os rostinhos dos espectadores aterrorizados. Pés que se descolavam do chão para a cadeira, mãos que pegavam em outras mãos, gritos na hora em que eu simulava o desmaio e até um choro desesperado na última apresentação.
Ainda bem que foi na última, pois me senti tão culpada pelo medo da aluna que estava em prantos que não teria coragem de encenar novamente.
Agora você deve estar se perguntando...
Como ela conseguiu fazer com que os alunos não contassem uns aos outros?
Fácil!
Nessa idade eles adoram ver a “aflição” do outro, então saíam quietinhos da sala de apresentação, não abriam o “bico” e esperavam ansiosamente a saída da próxima turma para ver quem tinha passado mais medo.
Diria a você, meu caro leitor, que essa foi a aula mais criativa e silenciosa da minha vida e isso com 80 alunos por apresentação!
Nada tão satisfatório como renovar o clima do ambiente escolar.
APRENDENDO: "A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe." (Jean Piaget)
quarta-feira, 17 de junho de 2009
terça-feira, 9 de junho de 2009
O fedor da educação parte II
Fiquei sem ação, não esperava aquela atitude. Senti muito medo, mas como não sou impulsiva, resolvi esperar o sinal tocar, pois só faltavam três minutos.
O sinal tocou.
Desci diretamente para a sala do vice-diretor, que se encontrava bem agitado com o aluno ao seu lado.
Acho que eu estava mais branca do que já sou, estava tão nervosa que minhas palavras não saíam, não conseguia explicar o que havia acontecido. Eu só ouvia a voz do aluno que parecia vir de bem longe, sem muita clareza. Percebia que ele estava bem alterado e o vice, bem nervoso.
Durante aqueles segundos lembrei-me da Pedagogia do Amor e em vez de me alterar como o aluno ou tentar encerrar tudo aquilo com um grito, pedi licença ao vice-diretor e convidei o aluno para ter uma conversa em particular na sala dos professores.
O vice-diretor me autorizou, mas deixou bem claro que ficaria de tocaia e era só chamá-lo se precisasse.
Durante a ida até a sala dos professores, eu tremia, mas ao mesmo tempo pensava em Deus e na Pedagogia do Amor. Pensava: “Eu preciso plantar uma semente nesse coração atordoado.”
Entramos na sala, pedi que sentasse e expusesse tudo que estava sentindo. Ele não quis se sentar e começou a falar dando tapas na mesa:
- Não foi eu que deixei aquela merda para você. Eu vou te matar, quem você pensa que é? Eu tenho vários amigos manos que é só eu falar com eles e eles te apagam. Cuidado! Você quer morrer?
Tremendo, eu não falava nada, deixei-o despejar tudo. Não tinha reação.
- Você só vai ser mais uma na lista de professores mortos.– Ele gritava.
– Tá com medo? E agora, não vai continuar com os agradecimentos? Vai, fala alguma coisa?
- Posso? – Perguntei em voz baixa.
Nesta hora ele parou de gritar e uma imensa força me deu voz.
- Assim como eu não te interrompi, não quero que me interrompa. Depois que terminar, nós tiraremos as conclusões juntos.Ok?
- Tudo bem. – Me respondeu ele um pouco mais calmo.
Então ele se sentou e começou a me ouvir.
- Em primeiro lugar eu não te acusei. Os seus colegas deram o seu nome como autor da idéia do presente e eu simplesmente te agradeci. Se não foi você, por que saiu tão nervoso me ameaçando? Bastava dizer que não havia sido você. E tem mais, o que você disse em alto e bom som para todos ouvirem pode se virar contra você hoje mesmo, porque se acontecer qualquer coisa comigo a primeira suspeita será você porque muitos testemunharam o ocorrido.
Depois do sermão passei a mudar a retórica colocando-o para cima e enfatizando algumas coisas que já havia percebido no decorrer das aulas.
- Confesso que eu fiquei apavorada com a sua reação. Não imaginava que você, um aluno tão esforçado, educado fosse tão nervoso assim. Você é muito novo para agir por impulso. Se você pega uma pessoa mais alterada como você, isso pode terminar em tragédia.
Continuei.
- Na sala de aula já ouvi você falando que trabalha para ajudar sua mãe, e se num impulso desses acontece algo com você, como fica sua mãe?
Nesse momento seus olhos se encheram de lágrimas e eu dei espaço para ele falar. Fui conduzindo a conversa para o lado familiar e ele foi se abrindo, conversando sobre tudo. Falou que morava em uma favela onde a lei era o crime, que seu irmão estava preso por assalto à mão armada e que não tinha nada a perder.
Aquele coração endurecido tinha motivos para isto, era um rapaz amargurado. Eu precisava resolver a situação. Expliquei-lhe que ele não era o único que passava por aquele tipo de situação, havia muitos como ele e o que ele deveria tentar era mudar a situação vivida e não tentar piorá-la.
Ele já se mostrava mais calmo e me perguntou qual atitude eu tomaria.
Respondi que poderia fazer um B.O. ou selar um laço de amizade entre nós.
Naquele momento estava me arriscando, porém ele parecia bem arrependido.
Ele deu um sorriso tímido, apertou a minha mão e selou amizade.
Então lhe disse:
- Eu quero poder ajudá-lo sempre que precisar. Espero que essa nossa conversa tenha sido um aprendizado para nós dois.
Nós saímos da sala dos professores, demos de cara com o vice que nos perguntou se estava tudo resolvido.
Ambos respondemos com a cabeça e nos despedimos.
Nunca fiquei sabendo quem foi autor da fétida brincadeira.
Passei alguns meses tentando me recompor daquele trauma e tentando ter uma boa relação com os alunos daquela classe.
Graças a Deus e a Pedagogia do Amor nunca mais senti o cheiro fedido daquela falta de educação.
Aprendendo: “... Como educar nossas crianças e jovens num tempo que a aparência vale mais que a essência e a competição e o individualismo teimam em ditar as regras dos relacionamentos, acabando por minar qualquer possibilidade de companheirismo, amizade e amor?” Gabriel Chalita
O sinal tocou.
Desci diretamente para a sala do vice-diretor, que se encontrava bem agitado com o aluno ao seu lado.
Acho que eu estava mais branca do que já sou, estava tão nervosa que minhas palavras não saíam, não conseguia explicar o que havia acontecido. Eu só ouvia a voz do aluno que parecia vir de bem longe, sem muita clareza. Percebia que ele estava bem alterado e o vice, bem nervoso.
Durante aqueles segundos lembrei-me da Pedagogia do Amor e em vez de me alterar como o aluno ou tentar encerrar tudo aquilo com um grito, pedi licença ao vice-diretor e convidei o aluno para ter uma conversa em particular na sala dos professores.
O vice-diretor me autorizou, mas deixou bem claro que ficaria de tocaia e era só chamá-lo se precisasse.
Durante a ida até a sala dos professores, eu tremia, mas ao mesmo tempo pensava em Deus e na Pedagogia do Amor. Pensava: “Eu preciso plantar uma semente nesse coração atordoado.”
Entramos na sala, pedi que sentasse e expusesse tudo que estava sentindo. Ele não quis se sentar e começou a falar dando tapas na mesa:
- Não foi eu que deixei aquela merda para você. Eu vou te matar, quem você pensa que é? Eu tenho vários amigos manos que é só eu falar com eles e eles te apagam. Cuidado! Você quer morrer?
Tremendo, eu não falava nada, deixei-o despejar tudo. Não tinha reação.
- Você só vai ser mais uma na lista de professores mortos.– Ele gritava.
– Tá com medo? E agora, não vai continuar com os agradecimentos? Vai, fala alguma coisa?
- Posso? – Perguntei em voz baixa.
Nesta hora ele parou de gritar e uma imensa força me deu voz.
- Assim como eu não te interrompi, não quero que me interrompa. Depois que terminar, nós tiraremos as conclusões juntos.Ok?
- Tudo bem. – Me respondeu ele um pouco mais calmo.
Então ele se sentou e começou a me ouvir.
- Em primeiro lugar eu não te acusei. Os seus colegas deram o seu nome como autor da idéia do presente e eu simplesmente te agradeci. Se não foi você, por que saiu tão nervoso me ameaçando? Bastava dizer que não havia sido você. E tem mais, o que você disse em alto e bom som para todos ouvirem pode se virar contra você hoje mesmo, porque se acontecer qualquer coisa comigo a primeira suspeita será você porque muitos testemunharam o ocorrido.
Depois do sermão passei a mudar a retórica colocando-o para cima e enfatizando algumas coisas que já havia percebido no decorrer das aulas.
- Confesso que eu fiquei apavorada com a sua reação. Não imaginava que você, um aluno tão esforçado, educado fosse tão nervoso assim. Você é muito novo para agir por impulso. Se você pega uma pessoa mais alterada como você, isso pode terminar em tragédia.
Continuei.
- Na sala de aula já ouvi você falando que trabalha para ajudar sua mãe, e se num impulso desses acontece algo com você, como fica sua mãe?
Nesse momento seus olhos se encheram de lágrimas e eu dei espaço para ele falar. Fui conduzindo a conversa para o lado familiar e ele foi se abrindo, conversando sobre tudo. Falou que morava em uma favela onde a lei era o crime, que seu irmão estava preso por assalto à mão armada e que não tinha nada a perder.
Aquele coração endurecido tinha motivos para isto, era um rapaz amargurado. Eu precisava resolver a situação. Expliquei-lhe que ele não era o único que passava por aquele tipo de situação, havia muitos como ele e o que ele deveria tentar era mudar a situação vivida e não tentar piorá-la.
Ele já se mostrava mais calmo e me perguntou qual atitude eu tomaria.
Respondi que poderia fazer um B.O. ou selar um laço de amizade entre nós.
Naquele momento estava me arriscando, porém ele parecia bem arrependido.
Ele deu um sorriso tímido, apertou a minha mão e selou amizade.
Então lhe disse:
- Eu quero poder ajudá-lo sempre que precisar. Espero que essa nossa conversa tenha sido um aprendizado para nós dois.
Nós saímos da sala dos professores, demos de cara com o vice que nos perguntou se estava tudo resolvido.
Ambos respondemos com a cabeça e nos despedimos.
Nunca fiquei sabendo quem foi autor da fétida brincadeira.
Passei alguns meses tentando me recompor daquele trauma e tentando ter uma boa relação com os alunos daquela classe.
Graças a Deus e a Pedagogia do Amor nunca mais senti o cheiro fedido daquela falta de educação.
Aprendendo: “... Como educar nossas crianças e jovens num tempo que a aparência vale mais que a essência e a competição e o individualismo teimam em ditar as regras dos relacionamentos, acabando por minar qualquer possibilidade de companheirismo, amizade e amor?” Gabriel Chalita
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