quarta-feira, 6 de maio de 2009

As paredes têm ouvido

Muitas pessoas já devem ter passado por uma situação parecida com esta que vou contar, mas para uma professora isso é um pecado quase que mortal.
Imaginem: sexta-feira, um calor insuportável, última aula de inglês em uma 6ª série e para completar os alunos haviam acabado de chegar da Educação Física depois de um jogo de futebol de um campeonato interclasses.
Não é preciso ser professora para saber que são necessários pelo menos cinco minutos para poder acalmar crianças agitadas.
Se você é mãe, dá logo um grito e umas boas palmadas; se você é tia ou tio, avó ou avô, oferece balinhas, chocolates e compra o silêncio; se você é vizinha ou amiga dos pais, faz chantagem: “assim a tia não gosta, vou contar para os seus pais”. Agora se você é professora não pode encostar no aluno ( já dizem que foi algo mais forte e é processo em cima de você), se alterar a voz , dizem que você gritou e isso é antipedagógico, então, o que lhe resta é ficar parada na frente dos alunos tentando mostrar que existe um ser estático na frente deles, provavelmente com uma fisionomia carrancuda, que - na verdade - está somente implorando o silêncio para poder exercer a sua profissão.
Foi assim que me posicionei naquela sexta-feira pós-Educação Física.
Os alunos chegaram agitados, suados, arrastando carteiras sem perceber que eu já me encontrava na sala. Fui para frente da lousa e lá fiquei, parada, sem dizer qualquer palavra...
Aos poucos - um por um - foi me percebendo, cutucando o colega e sussurrando coisas do tipo: “Olha a professora, ela tá brava!!!” , “Senta, senta, a professora quer dar aula”, “Vai senta logo, ela tá nervosa” .
O burburinho estava quase que inaudível quando percebi dois alunos se estranhando por causa do resultado do jogo (a cena era parecida com aquelas do Chaves - quando todos param de falar só o próprio Chaves continua e entrega toda a situação!)
É, foi isso mesmo, eu percebi que eles estavam se estranhando porque depois do silêncio havia apenas aquele barulho lá no fundo. Ouvi um xingamento e presenciei um ou dois pontapés tímidos para que ninguém percebesse. Decidi não me intrometer - pelo menos não naquele momento - para não agitar mais ainda a classe. Faria isso no fim da aula.
Interrompi a pequena discussão com um “Bom, posso iniciar a minha aula agora?”.
Ninguém respondeu.
Iniciei a explicação, mas percebi que a dupla continuava se estranhando, embora discretamente.
Quando faltavam uns cinco minutos para tocar o sinal da saída, um dos meninos veio até mim e relatou que o colega havia dado uns pontapés nele. Chamei o autor das ofensas e perguntei o que estava acontecendo.
Ele relatou o que eu havia percebido (uma discussão sobre o resultado do jogo), mas veementemente (como dizem os nossos parlamentares lá no Congresso!!!) negou ter dado os chutes no colega.
" Como? Tem certeza? Você não deu nenhum pontapé?" Perguntei.
E a resposta era sempre negativa, até que emendei: “Enquanto eu estava aqui na frente eu vi você dando pontapés.”
E ele retrucou: “Então a senhora está vendo demais.”
Eu não acreditei no que estava ouvindo.
O sinal tocou.
Antes de irem embora, tratei de resolver o problema ali mesmo e não deixar nada pendente para a Coordenação.
Estava me sentindo como um furacão e muito chateada com a falta de educação do garoto. Foi então que pedi que um se desculpasse com o outro, pois os dois estavam errados.
O aluno que xingou pediu desculpas, mas o que chutou, além de me desafiar, preferiu calar-se.
Então fiz mais uma tentativa:
“Ah! Você não quer pedir desculpas por um erro que cometeu ? Mesmo assim eu vou lhe dar dois dias ( sábado e domingo!) para refletir e voltar aqui para se desculpar com seu colega. Não vou te mandar para a coordenação porque eu sei que você (e eu também) está cansado - doido para ir para casa - , não é mesmo? Então vá e venha conversar comigo na segunda.”
Eles saíram e eu peguei minha bolsa e meu diário, saí da sala de aula e me dirigi à sala dos professores indignada com o que havia acontecido.
Enquanto eu guardava meu material no armário, ia desabafando sobre o ocorrido com os colegas.
Isso é mal de professor: saímos da sala de aula e continuamos falando sobre alunos, alunos e alunos.
Então lá estava eu... “aí aconteceu isso, isso e isso, e fulano de tal negou os chutes e ainda disse que eu estava enxergando demais”.
Completei: “isso é falta de caráter”.
Quando terminei de guardar meu material, me virei para a mesa dos professores para pegar a chave do meu carro e dei de cara com uma colega pálida como um fantasma, tentando me dizer algo com os olhos, levantando a sobrancelha e balançando a cabeça para a direita.
E eu com um ponto de interrogação na testa. O que ela estava querendo dizer?
Foi quando olhei para o lado e me deparei com a mãe do fulano de tal.
Ela estava lá porque era a responsável pelo marmitex dos funcionários da escola e naquele momento colocava toda a entrega na geladeira da cozinha, ao lado da sala dos professores.
Com certeza ela havia ouvido tudo o que eu tinha dito.
E, embora eu tenha ficado assustada com aquela presença, aproveitei o momento para demonstrar que o motivo do meu nervosismo era realmente a atitude do filho dela.
“Ah, que bom que a senhora está aí! Hoje ocorreu um caso chato na sala de aula... e o fulano de tal me desmentiu. Ultimamente ele anda fazendo coisas desagradáveis e não assume e também se dirige a mim com palavras grosseiras”.
Juro que usei muitos eufemismos para suavizar o meu nervosismo. (Taí uma das respostas para as questões dos alunos: Para quê estudar figuras de linguagens, professora?)
Para encerrar a conversa, disse: “Gostaria que a senhora conversasse com ele, pois ele ficou de me dar um retorno sobre a nossa conversa na segunda-feira".
Com certeza ela ficou muito nervosa com a minha atitude de aproveitar o momento e contar ali mesmo o ocorrido.
Tenho a impressão de que a fisionomia dela tenha ficado parecida com a minha no início da aula daquela 6ª série: um ser apenas estático.
Com um nervosismo introspectivo, ela disse secamente: “Tudo bem, vou falar com ele”.
Saí dali assustada, mas ao mesmo tempo aliviada já que tudo o que ela havia ouvido era realmente verdade. Eu não tinha falado bobagens e nem mesmo destratado o filho dela ao comentar o caso com os professores.
Foi naquele momento que agradeci a educação dada pela minha saudosa mãe, que dizia: “Filha, seja sempre sincera e verdadeira. Não minta.”.
Foi também naquele dia que acreditei piamente no velho ditado que diz: “Cuidado, as paredes têm ouvido!

Aprendendo: A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida. (Sêneca)

3 comentários:

  1. Muito sucesso para este blog...Será uma delícia conhecer os bastidores da arte de lecionar...bjss Ana Nery

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  2. Esses professores de Educação Física ... só sabem agitar, né ?
    E ai o aluno fez o que na segunda após a reflexão ? Beijos.

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