quarta-feira, 13 de maio de 2009

O fedor da educação (parte I)

Na semana passada li uma entrevista com Camilo da Silva Oliveira - diretor de uma das melhores escolas estaduais classificadas no Enem – que criticava os modismos adotados por diversos secretários da Educação.
Foi quando me veio à cabeça uma situação que passei em sala um tanto constrangedora, porém um tal modismo aplicado pelo ex-secretário Gabriel Chalita (Pedagogia do Amor) me ajudou a resolvê-la.
Era uma quinta-feira à noite, cheguei à escola e percebi que o horário havia mudado: em vez de ir para o 3º E, eu iria para o 1º G do Ensino Médio, uma sala um tanto quanto difícil.
Subi as escadas e quando cheguei à porta da sala havia um único aluno do lado de fora e um cheiro estranho.
Perguntei:
- Ué, só tem você hoje?
- Só, professora.- Ele me respondeu.
- E que cheiro estranho é esse?- Ele ficou calado.
Eu entrei na sala, me dirigi à mesa e imagine com o que eu deparo:
Um inseto para me assustar? – Não!
Uma fruta para me agradar? – Não!
Simples. Eu encontro um tolete de “merda” muito grande e fedorento.
Mais constrangido do que eu, estava o único aluno presente naquela sala.
Perguntei se ele sabia quem havia sido o autor e a resposta foi negativa.
A única coisa que pude fazer foi pedir ajuda a ele para descermos com a mesa para a direção e iniciarmos a nossa aula.
Fui embora literalmente arrasada e passei a semana inteira com aquilo na cabeça.
Como agiria com aquela sala?
Foi quando lendo algumas notícias sobre educação, vi o seguinte comentário sobre um livro recém lançado de Gabriel Chalita:
Segundo o escritor, os aprendizes de maneira geral, jovens e adultos conservam um pouco da ternura, amor e pureza própria da criança que existe em todos nós, portanto é possível resgatar valores morais, muito desprezados e até desconhecidos atualmente.
Percebi, então, que a partir daquela brincadeira de mau gosto eu poderia tentar
resgatar alguns valores para aquela turma.
Na semana seguinte entrei na sala de aula querendo apenas conversar.
Todos ficaram calados e eu fiz o meu discurso de uma forma branda e bem sorridente:
- Obrigada pelo presente que vocês me deixaram na semana passada. Nunca imaginei receber algo como aquilo. Foi uma idéia diferente e suja..
Percebi que eles olhavam entre si e continuei.
- É uma pena que tenhamos perdido nossa aula para um cocô, mas já que é assim, o que posso fazer?.
Nessa hora muitos riram; percebi que alguns nem sabiam sobre o que eu estava falando, então comecei a narrar a fedorentina situação para que todos pudessem estar a par do que havia acontecido.
Uns continuavam sádicos, outros boquiabertos.
Continuei o discurso tentando resgatar alguns valores como respeito ao próximo, muito desprezados e, diríamos, até desconhecido por alguns alunos.
Não esqueci do bom humor para que aquele sermão pudesse ser bem absorvido por eles.
- ... Não era o que eu gostaria de ganhar de vocês, mas se vocês acham que eu mereço, agradeço.
De repente, um aluno cortou o discurso e disse que o presente fedorento não era para mim, e sim para outro professor. Segundo ele, o problema foi a mudança de horário e eu acabei sendo a azarada...
- ... Mesmo assim, o fato é que se vocês acham que eu ou qualquer outro professor merecemos isso, mais uma vez agradeço.
Então falei também sobre respeito e educação.
Encerrei o discurso com um “obrigada por terem dispensado o tempo precioso de vocês com os meus agradecimentos e se quiserem conversar depois, estou à disposição.”
Tentei iniciar a aula, porém o assunto se espalhou pela sala assim como o cheiro da “merda” na semana anterior.
Alguns alunos começaram a entregar um certo colega.
Eu - bem descontraída - acabei agradecendo a ele, que muito nervoso saiu da sala dizendo que iria me matar...

(Na próxima semana, o término desta história que, graças a Pedagogia do Amor, terminou bem mais cheirosa do que se esperava!)

Aprendendo: "O grande segredo da educação de hoje é sua incapacidade de distinguir conhecimento e sabedoria. Forma a mente e despreza o caráter e o coração. As conseqüências são estas que se vê." (Theodore Palmquistes)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

As paredes têm ouvido

Muitas pessoas já devem ter passado por uma situação parecida com esta que vou contar, mas para uma professora isso é um pecado quase que mortal.
Imaginem: sexta-feira, um calor insuportável, última aula de inglês em uma 6ª série e para completar os alunos haviam acabado de chegar da Educação Física depois de um jogo de futebol de um campeonato interclasses.
Não é preciso ser professora para saber que são necessários pelo menos cinco minutos para poder acalmar crianças agitadas.
Se você é mãe, dá logo um grito e umas boas palmadas; se você é tia ou tio, avó ou avô, oferece balinhas, chocolates e compra o silêncio; se você é vizinha ou amiga dos pais, faz chantagem: “assim a tia não gosta, vou contar para os seus pais”. Agora se você é professora não pode encostar no aluno ( já dizem que foi algo mais forte e é processo em cima de você), se alterar a voz , dizem que você gritou e isso é antipedagógico, então, o que lhe resta é ficar parada na frente dos alunos tentando mostrar que existe um ser estático na frente deles, provavelmente com uma fisionomia carrancuda, que - na verdade - está somente implorando o silêncio para poder exercer a sua profissão.
Foi assim que me posicionei naquela sexta-feira pós-Educação Física.
Os alunos chegaram agitados, suados, arrastando carteiras sem perceber que eu já me encontrava na sala. Fui para frente da lousa e lá fiquei, parada, sem dizer qualquer palavra...
Aos poucos - um por um - foi me percebendo, cutucando o colega e sussurrando coisas do tipo: “Olha a professora, ela tá brava!!!” , “Senta, senta, a professora quer dar aula”, “Vai senta logo, ela tá nervosa” .
O burburinho estava quase que inaudível quando percebi dois alunos se estranhando por causa do resultado do jogo (a cena era parecida com aquelas do Chaves - quando todos param de falar só o próprio Chaves continua e entrega toda a situação!)
É, foi isso mesmo, eu percebi que eles estavam se estranhando porque depois do silêncio havia apenas aquele barulho lá no fundo. Ouvi um xingamento e presenciei um ou dois pontapés tímidos para que ninguém percebesse. Decidi não me intrometer - pelo menos não naquele momento - para não agitar mais ainda a classe. Faria isso no fim da aula.
Interrompi a pequena discussão com um “Bom, posso iniciar a minha aula agora?”.
Ninguém respondeu.
Iniciei a explicação, mas percebi que a dupla continuava se estranhando, embora discretamente.
Quando faltavam uns cinco minutos para tocar o sinal da saída, um dos meninos veio até mim e relatou que o colega havia dado uns pontapés nele. Chamei o autor das ofensas e perguntei o que estava acontecendo.
Ele relatou o que eu havia percebido (uma discussão sobre o resultado do jogo), mas veementemente (como dizem os nossos parlamentares lá no Congresso!!!) negou ter dado os chutes no colega.
" Como? Tem certeza? Você não deu nenhum pontapé?" Perguntei.
E a resposta era sempre negativa, até que emendei: “Enquanto eu estava aqui na frente eu vi você dando pontapés.”
E ele retrucou: “Então a senhora está vendo demais.”
Eu não acreditei no que estava ouvindo.
O sinal tocou.
Antes de irem embora, tratei de resolver o problema ali mesmo e não deixar nada pendente para a Coordenação.
Estava me sentindo como um furacão e muito chateada com a falta de educação do garoto. Foi então que pedi que um se desculpasse com o outro, pois os dois estavam errados.
O aluno que xingou pediu desculpas, mas o que chutou, além de me desafiar, preferiu calar-se.
Então fiz mais uma tentativa:
“Ah! Você não quer pedir desculpas por um erro que cometeu ? Mesmo assim eu vou lhe dar dois dias ( sábado e domingo!) para refletir e voltar aqui para se desculpar com seu colega. Não vou te mandar para a coordenação porque eu sei que você (e eu também) está cansado - doido para ir para casa - , não é mesmo? Então vá e venha conversar comigo na segunda.”
Eles saíram e eu peguei minha bolsa e meu diário, saí da sala de aula e me dirigi à sala dos professores indignada com o que havia acontecido.
Enquanto eu guardava meu material no armário, ia desabafando sobre o ocorrido com os colegas.
Isso é mal de professor: saímos da sala de aula e continuamos falando sobre alunos, alunos e alunos.
Então lá estava eu... “aí aconteceu isso, isso e isso, e fulano de tal negou os chutes e ainda disse que eu estava enxergando demais”.
Completei: “isso é falta de caráter”.
Quando terminei de guardar meu material, me virei para a mesa dos professores para pegar a chave do meu carro e dei de cara com uma colega pálida como um fantasma, tentando me dizer algo com os olhos, levantando a sobrancelha e balançando a cabeça para a direita.
E eu com um ponto de interrogação na testa. O que ela estava querendo dizer?
Foi quando olhei para o lado e me deparei com a mãe do fulano de tal.
Ela estava lá porque era a responsável pelo marmitex dos funcionários da escola e naquele momento colocava toda a entrega na geladeira da cozinha, ao lado da sala dos professores.
Com certeza ela havia ouvido tudo o que eu tinha dito.
E, embora eu tenha ficado assustada com aquela presença, aproveitei o momento para demonstrar que o motivo do meu nervosismo era realmente a atitude do filho dela.
“Ah, que bom que a senhora está aí! Hoje ocorreu um caso chato na sala de aula... e o fulano de tal me desmentiu. Ultimamente ele anda fazendo coisas desagradáveis e não assume e também se dirige a mim com palavras grosseiras”.
Juro que usei muitos eufemismos para suavizar o meu nervosismo. (Taí uma das respostas para as questões dos alunos: Para quê estudar figuras de linguagens, professora?)
Para encerrar a conversa, disse: “Gostaria que a senhora conversasse com ele, pois ele ficou de me dar um retorno sobre a nossa conversa na segunda-feira".
Com certeza ela ficou muito nervosa com a minha atitude de aproveitar o momento e contar ali mesmo o ocorrido.
Tenho a impressão de que a fisionomia dela tenha ficado parecida com a minha no início da aula daquela 6ª série: um ser apenas estático.
Com um nervosismo introspectivo, ela disse secamente: “Tudo bem, vou falar com ele”.
Saí dali assustada, mas ao mesmo tempo aliviada já que tudo o que ela havia ouvido era realmente verdade. Eu não tinha falado bobagens e nem mesmo destratado o filho dela ao comentar o caso com os professores.
Foi naquele momento que agradeci a educação dada pela minha saudosa mãe, que dizia: “Filha, seja sempre sincera e verdadeira. Não minta.”.
Foi também naquele dia que acreditei piamente no velho ditado que diz: “Cuidado, as paredes têm ouvido!

Aprendendo: A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida. (Sêneca)