Em 94 comecei a trabalhar como auxiliar de professora numa 1ª série - (atual 2º ano). Diria que era a incrível 1ª série C.
Até então, eu tinha impressão de que as crianças eram interessantes somente por volta dos três anos de idade, e, é claro, estava redondamente enganada.
Aquela turminha de seis e sete anos realmente me encantava. Entre os alunos, por exemplo, havia uma garota bem branquinha - repleta de sardas - que ficava o tempo todo atrás de mim.
Ela era literalmente uma sombra; uma sombra sorridente; sorridente sem dente.
Isso mesmo, a expressão inocente, angelical e sem vergonha de mostrar a ausência dos incisivos marcou o início da minha carreira como professora.
Aquele sorriso falho me mostrou que a alegria da profissão não está somente em ensinar, mas também em aprender com a vivência dos próprios alunos.
Percebi que eles não trazem para a sala de aula apenas o nome no diário de classe, mas, sim, histórias que acabam se tornando verdadeiras lições de vida.
A primeira - de muitas - que contarei aqui neste blog, ocorreu é claro, na inesquecível 1ª série C.
Lá estava ele: um garotinho negro, alto, falante, gracioso e que não se chamava Denis, mas era o perfeito “pimentinha”. Adorava fazer travessuras com os vizinhos da classe...
Sua mãe, uma senhora dessas “arretadas” - diriam os nossos conterrâneos lá do nordeste - não deixava nada barato. Por diversas vezes foi chamada à escola para tentar resolver juntamente com a professora a melhor forma de poder corrigir as atitudes do garoto; todas em vão.
Era sempre o mesmo blá, blá, blá: ela dava broncas no menino, que, cabisbaixo, prometia se comportar.
Dali alguns dias, a promessa era esquecida e o garoto voltava a apimentar o dia-a-dia da criançada.
Num belo dia (tal como contariam as histórias infantis...) aquela mãe foi chamada novamente pela direção escolar.
Mais arretada do que nunca, a nobre senhora chegou dizendo que havia encontrado a solução para o mau comportamento do filho e que depois daquele remédio nunca mais o garoto iria aprontar.
Acredite. Ela tirou de dentro da bolsa um par de ORELHAS DE BURRO...
Confeccionado pela própria senhora, o antídoto contra bagunças infantis era feito de cartolina, contornado com canetinha marrom e pintado com lápis de cor também marrom. O que significava aquilo?
Se você pensou que era para coroar a cabeça do garoto, acertou.
A mãe teimava tal como uma criança. Queria ir até a sala de aula e colocar as orelhas no menino na frente de todos os colegas.
Logicamente a professora com quem eu trabalhava não deixou, disse que a atitude iria constrangê-lo e isso seria muito ruim. Ela questionava e dizia que, como mãe, poderia fazer aquilo. Além do mais, tinha certeza de que isso iria corrigi-lo.
Tentamos convencê-la a levar as orelhas para casa, mas não houve jeito, ela insistia cortando a conversa a cada “mas” que surgia para explicar os porquês.
Conseguimos contornar a situação e chegou-se ao consenso de que as orelhas ficariam na diretoria da escola. O garoto, por sua vez, deveria ficar sabendo sobre a existência do objeto e a possibilidade de se tornar um adorno para a cabecinha dele, caso não se comportasse.
Chamaram o aluno. Ele ouviu tudo o que a mãe tinha a dizer e viu a sua frente aquele “artefato educativo” tão temeroso. (Imagino o que se passou pela cabecinha dele. As orelhas na cabeça e todas as outras crianças caçoando, tal como em “O fantástico mundo de Bob”...)
Ele prometeu, mais uma vez, se comportar.
Os dias se seguiram e o garoto sempre demonstrava pavor daquele objeto que, é claro, nunca foi utilizado.
A mãe nunca mais foi chamada. Mas não pensem que isso ocorreu porque o castigo criado por ela fez efeito.
O temor era mesmo de sermos surpreendidos por mais alguma novidade maluca trazida pela tal senhora arretada.
Aprendendo: "Os filhos tornam-se para os pais, segundo a educação que recebem uma recompensa ou um castigo." (J. Petit Senn)

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ResponderExcluirAnnelize, adorei a idéia do blog e mais ainda as "orelhas de burro". Parabéns pela iniciativa, pelo visto temos a mesma paixão, a educação,mesmo como todos os problemas. Um grande beijo e conte mais, vou adorar aparecer por aqui. Até ....
ResponderExcluirAnnelize achei muito interessante sua primeira história. Estarei ansioso a espera das próximas.
ResponderExcluirOi,Annelize!Eu li as histórias que vc contou.Confesso que fiquei muito surpresa com algumas.Achei interessante a sua idéia e vou multiplicá-la para outros colegas.Parabéns peloseu trabalho e felicidades.Beijos
ResponderExcluirQuerida,Annelize:Realmente,educar,não é uma tarefa fácil e ser professora nos dias de hoje tem sido uma missão difícil,mas não impossível.Assim como você,adoro ser professora,não me imagino em outra profissão.Tenho muita esperança e acredito muito nos meus alunos também.Parabéns!Que Deus nos ilumine a cada dia.Beijos
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