quarta-feira, 17 de junho de 2009

Educação aterrorizada

Aconteceu em 31 de outubro de 2007.
A escola onde eu trabalho tem cinco salas de aula no andar de cima e sete no andar de baixo, sendo que uma delas, na verdade, não é sala de aula; ora é laboratório, ora é sala de vídeo, ora não é nada.
Dizem que antes de a escola ser construída, o que havia ali era um terreno baldio onde enterravam corpos de indigentes e a “coveira” - uma senhora bem velha e maltrapilha - cuidava muito bem dos mortinhos ali enterrados.
Num certo dia apareceram tratores e máquinas para limpar o terreno, pois ali seria construída uma escola.
A velha não se conformava.
Durante toda a limpeza do terreno, ela se revoltava, não saía da frente das máquinas, brigava com as pessoas que tentavam exercer seu trabalho, até que percebeu que não podia lutar contra e jogou uma praga:
- Eu vou me matar aqui nesta parte do terreno para me encontrar com os colegas dos quais eu cuidei durante muito tempo e a parte da escola que será construída aqui eu amaldiçoarei para sempre.
E ela se matou ali mesmo.
Passado algum tempo a escola foi sendo construída, mas todo o operário que trabalhava naquela parte amaldiçoada, sentia calafrios, se machucava e às vezes até ouvia vozes. Foi uma dificuldade concluir a construção da escola, sobretudo no local onde a velhinha pôs fim a vida.
Depois de erguida e inaugurada a escola, alguns operários que sentiram a maldição da velha conversaram com o primeiro diretor, explicando o ocorrido e pediram que, para a proteção de todos os alunos, era necessário que aquela sala não fosse utilizada como sala de aula, mas sim como algo de uso esporádico. O diretor acatou o pedido e foi passando a história adiante até a diretora que exerce o cargo nos dias de hoje.
Eu nunca soube dessa história, mas na véspera desse dia, quando eu organizava a tal sala para um evento de Haloween no colégio, aconteceu uma coisa inacreditável.
Eu estava com alguns alunos pendurando os morcegos no teto quando veio um vento bem forte que atrapalhou toda a produção e junto com ele a imagem de um rosto de uma senhora.
Nesse momento eu desmaiei e acordei com vários alunos a minha volta.
...
...
...
Foi horrível, mas... você não acreditou, né?
É, realmente não é verdade.
Criei essa assustadora história no Dia do Halloween, pois a idéia da professora com quem eu trabalhava era criar uma sala ambiente, explicar a origem do Halloween e encerrar a aula com uma história de terror, que ficou por minha conta.
Eu não tinha idéia do que falar, pois aterrorizar alunos entre 12 e 14 anos com qualquer historinha não é fácil.
Então pensei em algo que incluísse a vivência daqueles meninos e meninas.
Foi muito engraçado e realmente assustador.
A cada “capítulo” da história, eu via os rostinhos dos espectadores aterrorizados. Pés que se descolavam do chão para a cadeira, mãos que pegavam em outras mãos, gritos na hora em que eu simulava o desmaio e até um choro desesperado na última apresentação.
Ainda bem que foi na última, pois me senti tão culpada pelo medo da aluna que estava em prantos que não teria coragem de encenar novamente.
Agora você deve estar se perguntando...
Como ela conseguiu fazer com que os alunos não contassem uns aos outros?
Fácil!
Nessa idade eles adoram ver a “aflição” do outro, então saíam quietinhos da sala de apresentação, não abriam o “bico” e esperavam ansiosamente a saída da próxima turma para ver quem tinha passado mais medo.
Diria a você, meu caro leitor, que essa foi a aula mais criativa e silenciosa da minha vida e isso com 80 alunos por apresentação!
Nada tão satisfatório como renovar o clima do ambiente escolar.

APRENDENDO: "A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe." (Jean Piaget)

terça-feira, 9 de junho de 2009

O fedor da educação parte II

Fiquei sem ação, não esperava aquela atitude. Senti muito medo, mas como não sou impulsiva, resolvi esperar o sinal tocar, pois só faltavam três minutos.
O sinal tocou.
Desci diretamente para a sala do vice-diretor, que se encontrava bem agitado com o aluno ao seu lado.
Acho que eu estava mais branca do que já sou, estava tão nervosa que minhas palavras não saíam, não conseguia explicar o que havia acontecido. Eu só ouvia a voz do aluno que parecia vir de bem longe, sem muita clareza. Percebia que ele estava bem alterado e o vice, bem nervoso.
Durante aqueles segundos lembrei-me da Pedagogia do Amor e em vez de me alterar como o aluno ou tentar encerrar tudo aquilo com um grito, pedi licença ao vice-diretor e convidei o aluno para ter uma conversa em particular na sala dos professores.
O vice-diretor me autorizou, mas deixou bem claro que ficaria de tocaia e era só chamá-lo se precisasse.
Durante a ida até a sala dos professores, eu tremia, mas ao mesmo tempo pensava em Deus e na Pedagogia do Amor. Pensava: “Eu preciso plantar uma semente nesse coração atordoado.”
Entramos na sala, pedi que sentasse e expusesse tudo que estava sentindo. Ele não quis se sentar e começou a falar dando tapas na mesa:
- Não foi eu que deixei aquela merda para você. Eu vou te matar, quem você pensa que é? Eu tenho vários amigos manos que é só eu falar com eles e eles te apagam. Cuidado! Você quer morrer?
Tremendo, eu não falava nada, deixei-o despejar tudo. Não tinha reação.
- Você só vai ser mais uma na lista de professores mortos.– Ele gritava.
– Tá com medo? E agora, não vai continuar com os agradecimentos? Vai, fala alguma coisa?
- Posso? – Perguntei em voz baixa.
Nesta hora ele parou de gritar e uma imensa força me deu voz.
- Assim como eu não te interrompi, não quero que me interrompa. Depois que terminar, nós tiraremos as conclusões juntos.Ok?
- Tudo bem. – Me respondeu ele um pouco mais calmo.
Então ele se sentou e começou a me ouvir.
- Em primeiro lugar eu não te acusei. Os seus colegas deram o seu nome como autor da idéia do presente e eu simplesmente te agradeci. Se não foi você, por que saiu tão nervoso me ameaçando? Bastava dizer que não havia sido você. E tem mais, o que você disse em alto e bom som para todos ouvirem pode se virar contra você hoje mesmo, porque se acontecer qualquer coisa comigo a primeira suspeita será você porque muitos testemunharam o ocorrido.
Depois do sermão passei a mudar a retórica colocando-o para cima e enfatizando algumas coisas que já havia percebido no decorrer das aulas.
- Confesso que eu fiquei apavorada com a sua reação. Não imaginava que você, um aluno tão esforçado, educado fosse tão nervoso assim. Você é muito novo para agir por impulso. Se você pega uma pessoa mais alterada como você, isso pode terminar em tragédia.
Continuei.
- Na sala de aula já ouvi você falando que trabalha para ajudar sua mãe, e se num impulso desses acontece algo com você, como fica sua mãe?
Nesse momento seus olhos se encheram de lágrimas e eu dei espaço para ele falar. Fui conduzindo a conversa para o lado familiar e ele foi se abrindo, conversando sobre tudo. Falou que morava em uma favela onde a lei era o crime, que seu irmão estava preso por assalto à mão armada e que não tinha nada a perder.
Aquele coração endurecido tinha motivos para isto, era um rapaz amargurado. Eu precisava resolver a situação. Expliquei-lhe que ele não era o único que passava por aquele tipo de situação, havia muitos como ele e o que ele deveria tentar era mudar a situação vivida e não tentar piorá-la.
Ele já se mostrava mais calmo e me perguntou qual atitude eu tomaria.
Respondi que poderia fazer um B.O. ou selar um laço de amizade entre nós.
Naquele momento estava me arriscando, porém ele parecia bem arrependido.
Ele deu um sorriso tímido, apertou a minha mão e selou amizade.
Então lhe disse:
- Eu quero poder ajudá-lo sempre que precisar. Espero que essa nossa conversa tenha sido um aprendizado para nós dois.
Nós saímos da sala dos professores, demos de cara com o vice que nos perguntou se estava tudo resolvido.
Ambos respondemos com a cabeça e nos despedimos.
Nunca fiquei sabendo quem foi autor da fétida brincadeira.
Passei alguns meses tentando me recompor daquele trauma e tentando ter uma boa relação com os alunos daquela classe.
Graças a Deus e a Pedagogia do Amor nunca mais senti o cheiro fedido daquela falta de educação.

Aprendendo: “... Como educar nossas crianças e jovens num tempo que a aparência vale mais que a essência e a competição e o individualismo teimam em ditar as regras dos relacionamentos, acabando por minar qualquer possibilidade de companheirismo, amizade e amor?” Gabriel Chalita



quarta-feira, 13 de maio de 2009

O fedor da educação (parte I)

Na semana passada li uma entrevista com Camilo da Silva Oliveira - diretor de uma das melhores escolas estaduais classificadas no Enem – que criticava os modismos adotados por diversos secretários da Educação.
Foi quando me veio à cabeça uma situação que passei em sala um tanto constrangedora, porém um tal modismo aplicado pelo ex-secretário Gabriel Chalita (Pedagogia do Amor) me ajudou a resolvê-la.
Era uma quinta-feira à noite, cheguei à escola e percebi que o horário havia mudado: em vez de ir para o 3º E, eu iria para o 1º G do Ensino Médio, uma sala um tanto quanto difícil.
Subi as escadas e quando cheguei à porta da sala havia um único aluno do lado de fora e um cheiro estranho.
Perguntei:
- Ué, só tem você hoje?
- Só, professora.- Ele me respondeu.
- E que cheiro estranho é esse?- Ele ficou calado.
Eu entrei na sala, me dirigi à mesa e imagine com o que eu deparo:
Um inseto para me assustar? – Não!
Uma fruta para me agradar? – Não!
Simples. Eu encontro um tolete de “merda” muito grande e fedorento.
Mais constrangido do que eu, estava o único aluno presente naquela sala.
Perguntei se ele sabia quem havia sido o autor e a resposta foi negativa.
A única coisa que pude fazer foi pedir ajuda a ele para descermos com a mesa para a direção e iniciarmos a nossa aula.
Fui embora literalmente arrasada e passei a semana inteira com aquilo na cabeça.
Como agiria com aquela sala?
Foi quando lendo algumas notícias sobre educação, vi o seguinte comentário sobre um livro recém lançado de Gabriel Chalita:
Segundo o escritor, os aprendizes de maneira geral, jovens e adultos conservam um pouco da ternura, amor e pureza própria da criança que existe em todos nós, portanto é possível resgatar valores morais, muito desprezados e até desconhecidos atualmente.
Percebi, então, que a partir daquela brincadeira de mau gosto eu poderia tentar
resgatar alguns valores para aquela turma.
Na semana seguinte entrei na sala de aula querendo apenas conversar.
Todos ficaram calados e eu fiz o meu discurso de uma forma branda e bem sorridente:
- Obrigada pelo presente que vocês me deixaram na semana passada. Nunca imaginei receber algo como aquilo. Foi uma idéia diferente e suja..
Percebi que eles olhavam entre si e continuei.
- É uma pena que tenhamos perdido nossa aula para um cocô, mas já que é assim, o que posso fazer?.
Nessa hora muitos riram; percebi que alguns nem sabiam sobre o que eu estava falando, então comecei a narrar a fedorentina situação para que todos pudessem estar a par do que havia acontecido.
Uns continuavam sádicos, outros boquiabertos.
Continuei o discurso tentando resgatar alguns valores como respeito ao próximo, muito desprezados e, diríamos, até desconhecido por alguns alunos.
Não esqueci do bom humor para que aquele sermão pudesse ser bem absorvido por eles.
- ... Não era o que eu gostaria de ganhar de vocês, mas se vocês acham que eu mereço, agradeço.
De repente, um aluno cortou o discurso e disse que o presente fedorento não era para mim, e sim para outro professor. Segundo ele, o problema foi a mudança de horário e eu acabei sendo a azarada...
- ... Mesmo assim, o fato é que se vocês acham que eu ou qualquer outro professor merecemos isso, mais uma vez agradeço.
Então falei também sobre respeito e educação.
Encerrei o discurso com um “obrigada por terem dispensado o tempo precioso de vocês com os meus agradecimentos e se quiserem conversar depois, estou à disposição.”
Tentei iniciar a aula, porém o assunto se espalhou pela sala assim como o cheiro da “merda” na semana anterior.
Alguns alunos começaram a entregar um certo colega.
Eu - bem descontraída - acabei agradecendo a ele, que muito nervoso saiu da sala dizendo que iria me matar...

(Na próxima semana, o término desta história que, graças a Pedagogia do Amor, terminou bem mais cheirosa do que se esperava!)

Aprendendo: "O grande segredo da educação de hoje é sua incapacidade de distinguir conhecimento e sabedoria. Forma a mente e despreza o caráter e o coração. As conseqüências são estas que se vê." (Theodore Palmquistes)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

As paredes têm ouvido

Muitas pessoas já devem ter passado por uma situação parecida com esta que vou contar, mas para uma professora isso é um pecado quase que mortal.
Imaginem: sexta-feira, um calor insuportável, última aula de inglês em uma 6ª série e para completar os alunos haviam acabado de chegar da Educação Física depois de um jogo de futebol de um campeonato interclasses.
Não é preciso ser professora para saber que são necessários pelo menos cinco minutos para poder acalmar crianças agitadas.
Se você é mãe, dá logo um grito e umas boas palmadas; se você é tia ou tio, avó ou avô, oferece balinhas, chocolates e compra o silêncio; se você é vizinha ou amiga dos pais, faz chantagem: “assim a tia não gosta, vou contar para os seus pais”. Agora se você é professora não pode encostar no aluno ( já dizem que foi algo mais forte e é processo em cima de você), se alterar a voz , dizem que você gritou e isso é antipedagógico, então, o que lhe resta é ficar parada na frente dos alunos tentando mostrar que existe um ser estático na frente deles, provavelmente com uma fisionomia carrancuda, que - na verdade - está somente implorando o silêncio para poder exercer a sua profissão.
Foi assim que me posicionei naquela sexta-feira pós-Educação Física.
Os alunos chegaram agitados, suados, arrastando carteiras sem perceber que eu já me encontrava na sala. Fui para frente da lousa e lá fiquei, parada, sem dizer qualquer palavra...
Aos poucos - um por um - foi me percebendo, cutucando o colega e sussurrando coisas do tipo: “Olha a professora, ela tá brava!!!” , “Senta, senta, a professora quer dar aula”, “Vai senta logo, ela tá nervosa” .
O burburinho estava quase que inaudível quando percebi dois alunos se estranhando por causa do resultado do jogo (a cena era parecida com aquelas do Chaves - quando todos param de falar só o próprio Chaves continua e entrega toda a situação!)
É, foi isso mesmo, eu percebi que eles estavam se estranhando porque depois do silêncio havia apenas aquele barulho lá no fundo. Ouvi um xingamento e presenciei um ou dois pontapés tímidos para que ninguém percebesse. Decidi não me intrometer - pelo menos não naquele momento - para não agitar mais ainda a classe. Faria isso no fim da aula.
Interrompi a pequena discussão com um “Bom, posso iniciar a minha aula agora?”.
Ninguém respondeu.
Iniciei a explicação, mas percebi que a dupla continuava se estranhando, embora discretamente.
Quando faltavam uns cinco minutos para tocar o sinal da saída, um dos meninos veio até mim e relatou que o colega havia dado uns pontapés nele. Chamei o autor das ofensas e perguntei o que estava acontecendo.
Ele relatou o que eu havia percebido (uma discussão sobre o resultado do jogo), mas veementemente (como dizem os nossos parlamentares lá no Congresso!!!) negou ter dado os chutes no colega.
" Como? Tem certeza? Você não deu nenhum pontapé?" Perguntei.
E a resposta era sempre negativa, até que emendei: “Enquanto eu estava aqui na frente eu vi você dando pontapés.”
E ele retrucou: “Então a senhora está vendo demais.”
Eu não acreditei no que estava ouvindo.
O sinal tocou.
Antes de irem embora, tratei de resolver o problema ali mesmo e não deixar nada pendente para a Coordenação.
Estava me sentindo como um furacão e muito chateada com a falta de educação do garoto. Foi então que pedi que um se desculpasse com o outro, pois os dois estavam errados.
O aluno que xingou pediu desculpas, mas o que chutou, além de me desafiar, preferiu calar-se.
Então fiz mais uma tentativa:
“Ah! Você não quer pedir desculpas por um erro que cometeu ? Mesmo assim eu vou lhe dar dois dias ( sábado e domingo!) para refletir e voltar aqui para se desculpar com seu colega. Não vou te mandar para a coordenação porque eu sei que você (e eu também) está cansado - doido para ir para casa - , não é mesmo? Então vá e venha conversar comigo na segunda.”
Eles saíram e eu peguei minha bolsa e meu diário, saí da sala de aula e me dirigi à sala dos professores indignada com o que havia acontecido.
Enquanto eu guardava meu material no armário, ia desabafando sobre o ocorrido com os colegas.
Isso é mal de professor: saímos da sala de aula e continuamos falando sobre alunos, alunos e alunos.
Então lá estava eu... “aí aconteceu isso, isso e isso, e fulano de tal negou os chutes e ainda disse que eu estava enxergando demais”.
Completei: “isso é falta de caráter”.
Quando terminei de guardar meu material, me virei para a mesa dos professores para pegar a chave do meu carro e dei de cara com uma colega pálida como um fantasma, tentando me dizer algo com os olhos, levantando a sobrancelha e balançando a cabeça para a direita.
E eu com um ponto de interrogação na testa. O que ela estava querendo dizer?
Foi quando olhei para o lado e me deparei com a mãe do fulano de tal.
Ela estava lá porque era a responsável pelo marmitex dos funcionários da escola e naquele momento colocava toda a entrega na geladeira da cozinha, ao lado da sala dos professores.
Com certeza ela havia ouvido tudo o que eu tinha dito.
E, embora eu tenha ficado assustada com aquela presença, aproveitei o momento para demonstrar que o motivo do meu nervosismo era realmente a atitude do filho dela.
“Ah, que bom que a senhora está aí! Hoje ocorreu um caso chato na sala de aula... e o fulano de tal me desmentiu. Ultimamente ele anda fazendo coisas desagradáveis e não assume e também se dirige a mim com palavras grosseiras”.
Juro que usei muitos eufemismos para suavizar o meu nervosismo. (Taí uma das respostas para as questões dos alunos: Para quê estudar figuras de linguagens, professora?)
Para encerrar a conversa, disse: “Gostaria que a senhora conversasse com ele, pois ele ficou de me dar um retorno sobre a nossa conversa na segunda-feira".
Com certeza ela ficou muito nervosa com a minha atitude de aproveitar o momento e contar ali mesmo o ocorrido.
Tenho a impressão de que a fisionomia dela tenha ficado parecida com a minha no início da aula daquela 6ª série: um ser apenas estático.
Com um nervosismo introspectivo, ela disse secamente: “Tudo bem, vou falar com ele”.
Saí dali assustada, mas ao mesmo tempo aliviada já que tudo o que ela havia ouvido era realmente verdade. Eu não tinha falado bobagens e nem mesmo destratado o filho dela ao comentar o caso com os professores.
Foi naquele momento que agradeci a educação dada pela minha saudosa mãe, que dizia: “Filha, seja sempre sincera e verdadeira. Não minta.”.
Foi também naquele dia que acreditei piamente no velho ditado que diz: “Cuidado, as paredes têm ouvido!

Aprendendo: A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida. (Sêneca)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

As arretadas orelhas de burro


Em 94 comecei a trabalhar como auxiliar de professora numa 1ª série - (atual 2º ano). Diria que era a incrível 1ª série C.
Até então, eu tinha impressão de que as crianças eram interessantes somente por volta dos três anos de idade, e, é claro, estava redondamente enganada.
Aquela turminha de seis e sete anos realmente me encantava. Entre os alunos, por exemplo, havia uma garota bem branquinha - repleta de sardas - que ficava o tempo todo atrás de mim.
Ela era literalmente uma sombra; uma sombra sorridente; sorridente sem dente.
Isso mesmo, a expressão inocente, angelical e sem vergonha de mostrar a ausência dos incisivos marcou o início da minha carreira como professora.
Aquele sorriso falho me mostrou que a alegria da profissão não está somente em ensinar, mas também em aprender com a vivência dos próprios alunos.
Percebi que eles não trazem para a sala de aula apenas o nome no diário de classe, mas, sim, histórias que acabam se tornando verdadeiras lições de vida.
A primeira - de muitas - que contarei aqui neste blog, ocorreu é claro, na inesquecível 1ª série C.
Lá estava ele: um garotinho negro, alto, falante, gracioso e que não se chamava Denis, mas era o perfeito “pimentinha”. Adorava fazer travessuras com os vizinhos da classe...
Sua mãe, uma senhora dessas “arretadas” - diriam os nossos conterrâneos lá do nordeste - não deixava nada barato. Por diversas vezes foi chamada à escola para tentar resolver juntamente com a professora a melhor forma de poder corrigir as atitudes do garoto; todas em vão.
Era sempre o mesmo blá, blá, blá: ela dava broncas no menino, que, cabisbaixo, prometia se comportar.
Dali alguns dias, a promessa era esquecida e o garoto voltava a apimentar o dia-a-dia da criançada.
Num belo dia (tal como contariam as histórias infantis...) aquela mãe foi chamada novamente pela direção escolar.
Mais arretada do que nunca, a nobre senhora chegou dizendo que havia encontrado a solução para o mau comportamento do filho e que depois daquele remédio nunca mais o garoto iria aprontar.
Acredite. Ela tirou de dentro da bolsa um par de ORELHAS DE BURRO...
Confeccionado pela própria senhora, o antídoto contra bagunças infantis era feito de cartolina, contornado com canetinha marrom e pintado com lápis de cor também marrom. O que significava aquilo?
Se você pensou que era para coroar a cabeça do garoto, acertou.
A mãe teimava tal como uma criança. Queria ir até a sala de aula e colocar as orelhas no menino na frente de todos os colegas.
Logicamente a professora com quem eu trabalhava não deixou, disse que a atitude iria constrangê-lo e isso seria muito ruim. Ela questionava e dizia que, como mãe, poderia fazer aquilo. Além do mais, tinha certeza de que isso iria corrigi-lo.
Tentamos convencê-la a levar as orelhas para casa, mas não houve jeito, ela insistia cortando a conversa a cada “mas” que surgia para explicar os porquês.
Conseguimos contornar a situação e chegou-se ao consenso de que as orelhas ficariam na diretoria da escola. O garoto, por sua vez, deveria ficar sabendo sobre a existência do objeto e a possibilidade de se tornar um adorno para a cabecinha dele, caso não se comportasse.
Chamaram o aluno. Ele ouviu tudo o que a mãe tinha a dizer e viu a sua frente aquele “artefato educativo” tão temeroso. (Imagino o que se passou pela cabecinha dele. As orelhas na cabeça e todas as outras crianças caçoando, tal como em “O fantástico mundo de Bob”...)
Ele prometeu, mais uma vez, se comportar.
Os dias se seguiram e o garoto sempre demonstrava pavor daquele objeto que, é claro, nunca foi utilizado.
A mãe nunca mais foi chamada. Mas não pensem que isso ocorreu porque o castigo criado por ela fez efeito.
O temor era mesmo de sermos surpreendidos por mais alguma novidade maluca trazida pela tal senhora arretada.


Aprendendo: "Os filhos tornam-se para os pais, segundo a educação que recebem uma recompensa ou um castigo." (J. Petit Senn)